Mulheres que fazem brotar sementes e espalham conhecimentos

Niedia em conversa com comitiva do intercâmbio.

Num único dia, o Intercâmbio entre Agricultoras e Agricultores de Regiões Áridas e Semiáridas do Mundo teve a oportunidade de conhecer algumas mulheres do semiárido cearense, entre elas a Niedia, a dona Socorro e dona Angélica. 
Numa tarefa difícil, a equipe da Obas teve que selecionar entre tantas vivências, duas que pudessem representar as lutas das agricultoras com base agroecológica e receber  representantes do Senegal, Niger, Chade e Burkina Faso acompanhados pela ASA – Articulação Semiárido Brasileiro – e FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. 

O quintal da dona Socorro e da Niedia, transborda alegria e bem viver.  Ao descer do ônibus, os focinhos caninos que vem nos receber demonstram o carinho que recebem de suas donas. Percorrer a propriedade situada na comunidade Cristais, em Ocara, em pleno mês de dezembro e encontrá-la respingada de verde por toda a parte causa surpresa aos menos conhecedores do que se passa por aqui. É que dona Socorro e Niedia – mãe e filha – são amantes da terra e tudo por ela fazem.

Dona Socorro, entre a cozinha e o alpendre numa paradinha para animar a conversa.

“Todo começo é difícil, mas a gente nunca perde a coragem, a esperança e a fé. A gente trabalha muito, mas se não for desse jeito, a gente não consegue nada, né?” diz dona Socorro, a matriarca da família, que mais parece mãe do mundo, tamanha generosidade e bom humor.

Niedia mostra a caixa de gordura, onde ficam os primeiros resíduos da água a ser reutilizada.

As tecnologias sociais promovem transformação

 Niedia abre um sorriso enquanto arruma o boné, seu companheiro nas andanças pela propriedade da família. O sol ainda não revelou sua plenitude, o que também é amenizado pelas frutíferas que circulam o quintal. Ela já começa falando sobre o projeto do reuso das águas, tecnologia recebida através do Projeto São José, do Governo do Estado do Ceará, no ano passado. “Eu nunca imaginei que um projeto desses, que junto com as cisternas, pudesse mudar tanto a qualidade de vida da gente”, diz Niedia. 
Com a ajuda de um tradutor, que se apressa em acompanhar palavras tão animadoras, a comitiva se enche de perguntas sobre o manuseio, benefícios, contrapartida e utilização das tecnologias, mas um detalhe chama a atenção da comitiva: tudo conduzido por mulheres! O conhecimento técnico de Niedia os impressiona, assim como a sua capacidade de lidar com as adversidades.

Tanque para a produção de húmus de minhoca


Percorrendo o projeto do reuso das águas, Niedia fala sobre o tratamento da água antes de reutilizá-la,passando pelo filtro biológico até chegar à caixa para a irrigação. Sem perder o humor, ela brinca que “ninguém quer beber água com gosto de sabão. Nem mesmo as minhocas.”
Além do reuso das águas, o quintal possui também a cisterna de primeira água e a cisterna calçadão, responsável por manter o canteiro de hortaliças e as frutíferas em plena produção. “A gente até vende o que sobra, mas o importante mesmo é a gente ter alimento de qualidade pra gente. E pode anotar aí: nós mulheres é que fazemos tudo aqui dentro”, reafirma dona Socorro.

Roda de conversa antes do almoço

Oferecer um variado almoço em que noventa por cento dos itens são extraídos do seu quintal, enche as duas de satisfação. Nosso estômago agradece.

“O que importa é enxergar com o coração” – dona Angélica

Dona Angélica (primeira à esquerda) dá as boas vindas 

Seguimos rumo ao quintal dadona Angélica, na comunidade Pau Pereira, no vizinho município Chorozinho. A estrada de terra batida nesse período esconde as dificuldades do trajeto no período de chuvas, em que o acesso se torna bem mais difícil.

Comitiva africana atenta à fala de dona Angélica

A capelinha da comunidade abriu suas portas pra nos receber com música e mensagens de boas vindas. Cercada pelo marido – seu Francisco Eduardo e pelas filhas e filhos, dona Angélica abre o sorriso e com sua voz mansa e acolhedora, nos conta um pouco da sua história, de como perdeu a visão num erro médico e como ressignificou sua vida a partir desse fato. No entorno da capela, ficam as casas dos filhos e mais no final, a casa de dona Angélica. A atmosfera de união familiar é perceptível. O grande alpendre estava repleto de filhos e netos pra nos acolher. Nos fundos da casa é possível encontrar várias tecnologias sociais como a cisterna de placas, o reuso das águas, cisterna enxurrada e o biodigestor. E foi falando nessa última tecnologia que a comitiva africana ficou curiosa pra conhecer. E mais uma vez, as mulheres estiveram à frente da apresentação. Dessa vez, foi a filha de dona Angélica, do mesmo nome que a mãe,quem apresentou. A surpresa de como o esterco se transforma em gás metano também gera algumas piadas, tipicamente cearense. Entre elas, dona Angélica nos conta que certa vez, uma pessoa perguntou se o fogo gerado pelo biodigestor queimava e ela prontamente respondeu que bastava colocar o dedo e se gritar…

Dona Angélica rodeada pela família

Durante a merenda da tarde,com variados sucos de frutas da época, tapiocas e outras guloseimas, foi distribuído para a comitiva o Candeeiro nº 2332, publicação da ASA que conta a história da dona Angélica, só que em francês! Foi uma grata surpresa pra família que, de tanto receber visitas e intercâmbios, criou um livro de assinaturas para registrar esses momentos. “Agora vamos ter ainda mais materiais pra mostrar pros visitantes”, disse Ozelina, uma das filhas de dona Angélica.

Visitantes recebem O Candeeiro traduzido para o francês

Durante toda a visita, Levi, um dos netos de dona Angélica, nos deu uma grande lição: a língua não é obstáculo para o afeto e o bem viver.

Levi – neto de dona Angélica – se divertindo com o novo amigo.

Sigamos…

Texto e fotos por Ricardo Wagner – Comunicador popular pela Obas